Segunda-feira, 3 de Janeiro de 2011
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Todas as noites encosto à moleirinha o cano imaginário de uma Magnum cuja complexidade em

centímetros remete a uma síndrome ainda não diagnosticada de Inspetor Callahan. Às 23:45 reviso a

minha Football season is over e puxo o gatilho (mas sem dramas e peixeiradas). Aqui entre nós: apenas

para me acostumar com o inevitável.



acephalus às 18:54
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Domingo, 2 de Janeiro de 2011
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Desde que me disseram que este blogue está cheio de flashbacks, mas nenhum deles explicativo,

a minha vida mudou muito. Não tenho nenhum conhecimento concreto das razões técnicas que levaram

o bode a se tornar expiatório. Mas, na minha irresponsabilidade, sugiro que sejamos honestos. Todas as

generalizações (exceto esta) abrem alas (mas sem um plano muito elaborado de deveres) para o

neo-malthusianismo daqueles que se certificaram da multidão de merdas que a Igreja Anglicana despejou

num canto distante, mas acessível. Na minha escala demagógica de valores sempre estiveram mais

próximo do fim que do início. (E reparem que tomei o cuidado de não estabelecer relações de igualdade

entre um matagal intransponível de pentelhos, a Igreja Anglicana e o resto.)

 

Imagino que isto não seja nada fácil de entender e, tenho quase a certeza, também deve ser bem

complicado de explicar. Mas, já que insistem. Por razões que ultrapassam, a grande velocidade, o âmbito

das análises jurídica e pictórica (é, jurídica e pictórica, qual o problema?), escrever estas merdas sem ferir

o coração desprotegido dos meus leitores é como correr uma maratona com os cadarços desamarrados,

e há quem desconfie (eu, claro) que as pinturas do Turner se calhar são até muito boas, só não são

visíveis debaixo de tantos borrões.



acephalus às 09:56
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Sexta-feira, 24 de Dezembro de 2010
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A idade não chega para proteger tudo. Mas é até possível que esta segunda (e merecida)

adolescência nos leve a algum lado. Por via das dúvidas, amanhã irei à capelinha pedir a Nossa

Senhora que me faça um frete.



acephalus às 07:54
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Sexta-feira, 17 de Dezembro de 2010
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Disse ontem ao Jairo e ao seu respeitável público que o casamento homossexual é um conceito tão

simples e arrumado que representa um pequeno passo para o fim das nossas emissões de gás carbónico e

um tropeção do caralho para a humanidade (agora convertida (quem diria?) a uma bela e desconchavada

agenda onde mais uma vez se prova que o liberalismo é uma citação.)



acephalus às 08:18
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Terça-feira, 14 de Dezembro de 2010
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Não há, infelizmente, Bernardos Soares suficientes que respondam porque é que o Kandinsky

(ou qualquer outro pintor de calendário) em nenhum momento se mostra sem a carga neurastênica

que dezenas de anos de arte abstrata depositaram sobre a necessidade de ingressar numa faixa etária

em que a heteronímia é uma questão de sobrevivência. Na verdade, seria preciso recorrer a todos os

dedos das mãos (inclusive dos outros) para contabilizar o que de forma encolhida e envergonhada

(não é pêra doce escrever estas merdas) passa a ser um nó que tem de ser cada vez mais apertado -

resta saber em volta de quê.



acephalus às 02:35
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Quarta-feira, 8 de Dezembro de 2010
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Cruzei metade da cidade, sem levantar o cu do selim. Afinal eu também quero ver este mundo

antes do próximo.



acephalus às 17:43
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Segunda-feira, 6 de Dezembro de 2010
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Ontem o meu carro estragou. Andei quilômetros à pata. Depois apanhei um ônibus. Foram 35

minutos ali ao lado de uma criatura exageradamente generosa fisicamente a ensanduichar-me contra a

janela. O que eu peço para 2011 são assentos de ônibus que não só aproveitem as condições exteriores,

como nos protejam delas.



acephalus às 17:22
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Sábado, 4 de Dezembro de 2010
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Depois da Missa do Galo, já tenho um segundo belíssimo pretexto para passar a noite de Natal

afundado no sofá diante da televisão. A confirmação chegou hoje cedo por SMS: Daniel, Tisto, Felipe,

poderemos todos rever o terceiro e último combate entre Ali e Frazier pelo fundo nublado de um copo

de refrigerante. Obrigado, tia!



acephalus às 02:45
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Quarta-feira, 1 de Dezembro de 2010
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O dia de amanhã terá, com ida e volta, uns 35 quilômetros de extensão. Vou à fazendinha devolver

a dona Mariana (minha tia) ao seu habitat. Somos muito parecidos, salvo pelo fato de que ela ostenta uma

cabeça raspada de paciente psiquiátrico. O que não a torna menos atraente ou menos madrinha deste

blog.



acephalus às 11:13
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Terça-feira, 23 de Novembro de 2010
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Os primeiros cigarros que fumei foram roubados da gaveta do meu avô e já não se encontram

à venda. Começou assim: antes da aula punha-os no bolso da mochila e à noite fumava o maço todo,

ou até vomitar ao lado da cama. Não se pode dizer que na infância me faltasse força de vontade. Mas

meus propósitos em me tornar o primeiro fumante de 9 anos da família (para além doutros erros que se

perdoam) foram em fila indiana para o brejo, deixando a porta aberta a todo um mundo de considerações:

entre elas a de que o cigarro é um aparato consensualmente lamentável da sedução masculina.

 

Eu sei do risco que há em que os vulcões da puberdade reentrem em atividade. Sei também que o amor

é uma belíssima idéia de pais desconhecidos (e até pode ser considerado por muitos a password para

ingressar nalguma compreensão daquela época). Mas vamos com calma. Ou então não vamos. Até

porque, na esperança de que algo misterioso e improvável aconteça, meus dias acabaram por ser um

rosário de punhetas e de propósitos de não voltar a fumar.



acephalus às 17:23
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Domingo, 21 de Novembro de 2010
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Precisamente a três dias de uma das minhas bimensais idas ao barbeiro, tenho elaborado

antecipadamente uma saída à aflitiva questão posta pela minha mãe com o evidente propósito de

me surpreender e condicionar as minhas ainda inexistentes relações com a cidade de Bologna.

Espero desatar este nó até (mais tardar) sexta-feira. A minha estratégia (insuflada com dois maços

diários de Marlboro) será precisamente estabelecer um ponto imperceptível de contato com aquilo

que a minha mãe pensa que sabe. E não sabe. Porque as minhas razões são ainda piores do que

ela imagina. Ainda assim, vou esperar. Até porque pode ser que de dentro dela saia mais do que

aquilo que por dentro dela há.

 

P. S.: Depois de desperdiçar duas horas do meu precioso e mal remunerado tempo analisando os

impactos negativos que a cidade de Bologna, com e sem a ajuda da Curva de Lorenz (o que não

deixa de configurar trabalho adicional sem o meu batalhão de conselheiros), pode ter sobre mim

(e vice-versa), só posso dizer, mas assim olhando-me nos olhos: Giordano, aumenta o diâmetro e

o perfil longitudinal do teu bilau antes de te meteres numa canoa-furada destas.



acephalus às 04:42
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Sexta-feira, 19 de Novembro de 2010
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Ao que tudo indica a partir de amanhã, e a título de indenização (não reparem), poderei tomar

algumas decisões por mim mesmo. Assim, sem a ajuda de frases-feitas ou de genitais hiperativas.



acephalus às 07:14
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Quinta-feira, 18 de Novembro de 2010
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Uma saloiice cada vez menos comum na minha vida são os momentos de aperfeiçoamento

veterinário (mulheres). Não porque atravessar dois eclesiastes em noite de bar aberto e acabar

reconhecendo todos os motivos que dão forçosamente no que dão, não esteja entre as prioridades

daquilo que o mundo exige e merece de mim. Mas porque as "descobertas" - para que sejam completas,

tranqüilizantes e esquecíveis - devem estar encapsuladas em merdas que nos impeçam de prever que,

às tantas, vamos cair não apenas num buraco premonitório daquele outro que pode vir a acontecer

daqui a 10 minutos, mas que as coisas (entre elas o taxista que mascava chiclets, fazendo com ele

bolas grandes e azuis; e cuja retina, debaixo das bifocais, aparecia no retrovisor com um rápido

redemoinho), estão (e até onde sei, devem continuar) constrangidas ao aspecto de uma cômoda em

que sempre foi necessário fechar uma gaveta para que as outras se abrissem. Ou isso, ou portanto

não é preciso que me obriguem a observar o detalhe do que me acontece, como se em cada uma

destas merdas me despachasse já para o ano todo.

 

P. S.: Amanhã, se tiver tempo, venho refazer a toilette a este post.



acephalus às 10:27
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Sexta-feira, 12 de Novembro de 2010
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Pode ser que a influência do mau futebol italiano na liga portuguesa não seja suficiente para

exprimir a contrariedade que o cochilo do meu avô na frente da televisão já teve o condão de evidenciar.



acephalus às 01:27
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Quinta-feira, 11 de Novembro de 2010
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Visto a jaqueta (com fortes aromas a ranço na gola alta) e o par de galochas laranja. A chuva é fina,

com um sabor dominante que nos faz salivar e cuspir a qualquer hora. Ainda assim estamos prontos - eu,

o meu avô, e o Chico (um cachorro malhado que vive na estalagem e que nos servirá de guia) - para

botanizar a prainha e os dois matos agrupados em saiotes à frente dela. O meu avô faz boa figura na sua

capa de chuva. Vejo nisto o reverso da prova de que se trata de um homem que não se intimida com as

exigências da proporcionalidade. Mas isto de ser avô e de ser contra o desperdício de se dar ao mundo

todas as voltas possíveis em 3 meses é como ser o baterista dos Beatles sem ser o Ringo Starr: pega mal.

Já em mim, de tanto me assoar, nariz e beiços trazem à tona aquela que, dentre as poucas alucinações

gustativas que perduram da minha infância, mais parecido me deixa com o Incrível Hulk, mas

pequeno e sem os músculos.



acephalus às 00:15
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Quarta-feira, 10 de Novembro de 2010
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Fui guardar a gabardine no armário. Foram cerca de dois mil quilômetros de carro. Para dissipar a

sonolência pós-almoçarada, íamos (eu e o meu avô) maldizendo às boas condições da estrada. Nem a

tênue e ainda distante vista do casario de Angra nem a presença de mulheres nas lavouras conseguia

ser entusiasmante. E, além do mais, dirigir era parte da vontade que eu não tinha de meter "as mãos na

massa".


Cruzamos a cachoeirinha (e toda essa merda que bem menciono) para, duas matas de loureiros adiante,

estacionarmos no gramado ao lado da estalagem. A hospedagem era boa, e como estava quente calhou

de nos trazerem uma bola de sorvete com um molho de figos delicadamente macerados. Sentamos numas

cadeiras de armar postas na varanda. Depois nos desenjoamos com uns cigarrinhos que ele trouxe da

Guatemala. O arrivismo do meu avô não renuncia felizmente à sutileza. À noite, a pouca densidade do

caldo que preparamos para o jantar foi compensada pela cerveja artesanal que compramos no vizinho.

O meu avô duvidava, mas passamos um final de semana arriscadamente próximos como os jogadores

nas equipes do Mourinho.



acephalus às 06:41
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Segunda-feira, 8 de Novembro de 2010
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Depois de ler 4 caixas de Lucky Luke um homem compreende muito melhor que não deve se dirigir

à humanidade sem antes dizer quem é. No caso do vencedor do Goncourt 2010, não é preciso. E talvez

seja mesmo apenas um preconceito o fato de Michel Houellebecq estar vivo. Basta escutar qualquer

uma das suas merdas para ficar convencido de que ele não vive. Cá entre nós, com todo este circo

montado, há uma obrigação contra a qual os meus hábitos, e ainda mais o superavit das minhas leituras

em 2010, não se acomoda: a obrigação de pentear macacos quando o assunto é Michel Houellebecq. O

único mérito de Houellebecq (concedendo que haja um) foi que ele não procurou dizer o que os outros

ainda não haviam dito. Acho até que ele é uma pessoa que, do ponto de vista daquilo que pensa, se

parece muito com o monstro de Lochness: é apenas folclórico. Digo isto por intuição, porque (para lá

de toda a lógica possível) não o li.



acephalus às 07:33
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Sábado, 6 de Novembro de 2010
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Dentre as minhas poucas atribuições constava (aos 9 anos) a leitura diária para a distração

do meu avô. Este homem, que não conheceu nenhuma das objeções contemporâneas à criação de

boas circunstâncias e que, ainda hoje, só conhece a internet e a minissaia por ouvir dizer, teve na

sua biografia vastas e prolongadas estadas no continente africano. Viveu sete anos na periferia do

Cairo. O Reagan, a Thatcher e o Tintin eram a sua referência política para todos os males vividos

naqueles lugares onde o catolicismo o educou para ser culpado. Porque é isso, justamente, que faz

de nós os filhos da puta que, com grande felicidade, realmente somos.



acephalus às 07:08
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Terça-feira, 19 de Outubro de 2010
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Eu, de escritores não falo. Mas, caso falasse, diria que o Boris Vian é um bom escritor e que,

apesar disso, escreve bem, diria mesmo imaculadamente bem. Afinal pode-se chutar uma bola sem

ser de trivela, e decidir partidas a caneladas.



acephalus às 18:22
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Sábado, 16 de Outubro de 2010
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O autor deste blogue - e uso o termo "autor" com a latitude menos cartesiana que o termo comporta -

esteve em Tarragona trocando os vês pelos bês durante os dois últimos meses, e o que mais lhe inquieta

agora é a possibilidade de sobreviver aos próximos dois sem uma intersecção segura com esta cidadezinha

e algumas de suas habitantes em noite de bar aberto.


Pode-se dizer, fukuyamamente, que é o fim (não o único; especialmente não agora) das minhas

necessidades não especiais. Também pensei em abandonar definitivamente este URL (até porque eu tenho

muitos telhados de vidro) e ir para Las Vegas me despedir de mim mesmo. Mas não. Não tenho uma

vontade diferente da que tinha. É a mesma. Mas menor (e continuamente diminuindo por um número de

razões que só podem ser completamente percebidas em 3D). É que nem de pernas e braços cruzados

consigo perceber as mirabolantes doses de colaboração passiva necessárias para reverter um festivo

rendez-vous de superstições com apenas 35 anos de atraso.



acephalus às 23:46
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