Todas as noites encosto à moleirinha o cano imaginário de uma Magnum cuja complexidade em
centímetros remete a uma síndrome ainda não diagnosticada de Inspetor Callahan. Às 23:45 reviso a
minha Football season is over e puxo o gatilho (mas sem dramas e peixeiradas). Aqui entre nós: apenas
para me acostumar com o inevitável.
Desde que me disseram que este blogue está cheio de flashbacks, mas nenhum deles explicativo,
a minha vida mudou muito. Não tenho nenhum conhecimento concreto das razões técnicas que levaram
o bode a se tornar expiatório. Mas, na minha irresponsabilidade, sugiro que sejamos honestos. Todas as
generalizações (exceto esta) abrem alas (mas sem um plano muito elaborado de deveres) para o
neo-malthusianismo daqueles que se certificaram da multidão de merdas que a Igreja Anglicana despejou
num canto distante, mas acessível. Na minha escala demagógica de valores sempre estiveram mais
próximo do fim que do início. (E reparem que tomei o cuidado de não estabelecer relações de igualdade
entre um matagal intransponível de pentelhos, a Igreja Anglicana e o resto.)
Imagino que isto não seja nada fácil de entender e, tenho quase a certeza, também deve ser bem
complicado de explicar. Mas, já que insistem. Por razões que ultrapassam, a grande velocidade, o âmbito
das análises jurídica e pictórica (é, jurídica e pictórica, qual o problema?), escrever estas merdas sem ferir
o coração desprotegido dos meus leitores é como correr uma maratona com os cadarços desamarrados,
e há quem desconfie (eu, claro) que as pinturas do Turner se calhar são até muito boas, só não são
visíveis debaixo de tantos borrões.
A idade não chega para proteger tudo. Mas é até possível que esta segunda (e merecida)
adolescência nos leve a algum lado. Por via das dúvidas, amanhã irei à capelinha pedir a Nossa
Senhora que me faça um frete.
Disse ontem ao Jairo e ao seu respeitável público que o casamento homossexual é um conceito tão
simples e arrumado que representa um pequeno passo para o fim das nossas emissões de gás carbónico e
um tropeção do caralho para a humanidade (agora convertida (quem diria?) a uma bela e desconchavada
agenda onde mais uma vez se prova que o liberalismo é uma citação.)
Não há, infelizmente, Bernardos Soares suficientes que respondam porque é que o Kandinsky
(ou qualquer outro pintor de calendário) em nenhum momento se mostra sem a carga neurastênica
que dezenas de anos de arte abstrata depositaram sobre a necessidade de ingressar numa faixa etária
em que a heteronímia é uma questão de sobrevivência. Na verdade, seria preciso recorrer a todos os
dedos das mãos (inclusive dos outros) para contabilizar o que de forma encolhida e envergonhada
(não é pêra doce escrever estas merdas) passa a ser um nó que tem de ser cada vez mais apertado -
resta saber em volta de quê.
Cruzei metade da cidade, sem levantar o cu do selim. Afinal eu também quero ver este mundo
antes do próximo.
Ontem o meu carro estragou. Andei quilômetros à pata. Depois apanhei um ônibus. Foram 35
minutos ali ao lado de uma criatura exageradamente generosa fisicamente a ensanduichar-me contra a
janela. O que eu peço para 2011 são assentos de ônibus que não só aproveitem as condições exteriores,
como nos protejam delas.
Depois da Missa do Galo, já tenho um segundo belíssimo pretexto para passar a noite de Natal
afundado no sofá diante da televisão. A confirmação chegou hoje cedo por SMS: Daniel, Tisto, Felipe,
poderemos todos rever o terceiro e último combate entre Ali e Frazier pelo fundo nublado de um copo
de refrigerante. Obrigado, tia!
O dia de amanhã terá, com ida e volta, uns 35 quilômetros de extensão. Vou à fazendinha devolver
a dona Mariana (minha tia) ao seu habitat. Somos muito parecidos, salvo pelo fato de que ela ostenta uma
cabeça raspada de paciente psiquiátrico. O que não a torna menos atraente ou menos madrinha deste
blog.
Os primeiros cigarros que fumei foram roubados da gaveta do meu avô e já não se encontram
à venda. Começou assim: antes da aula punha-os no bolso da mochila e à noite fumava o maço todo,
ou até vomitar ao lado da cama. Não se pode dizer que na infância me faltasse força de vontade. Mas
meus propósitos em me tornar o primeiro fumante de 9 anos da família (para além doutros erros que se
perdoam) foram em fila indiana para o brejo, deixando a porta aberta a todo um mundo de considerações:
entre elas a de que o cigarro é um aparato consensualmente lamentável da sedução masculina.
Eu sei do risco que há em que os vulcões da puberdade reentrem em atividade. Sei também que o amor
é uma belíssima idéia de pais desconhecidos (e até pode ser considerado por muitos a password para
ingressar nalguma compreensão daquela época). Mas vamos com calma. Ou então não vamos. Até
porque, na esperança de que algo misterioso e improvável aconteça, meus dias acabaram por ser um
rosário de punhetas e de propósitos de não voltar a fumar.
Precisamente a três dias de uma das minhas bimensais idas ao barbeiro, tenho elaborado
antecipadamente uma saída à aflitiva questão posta pela minha mãe com o evidente propósito de
me surpreender e condicionar as minhas ainda inexistentes relações com a cidade de Bologna.
Espero desatar este nó até (mais tardar) sexta-feira. A minha estratégia (insuflada com dois maços
diários de Marlboro) será precisamente estabelecer um ponto imperceptível de contato com aquilo
que a minha mãe pensa que sabe. E não sabe. Porque as minhas razões são ainda piores do que
ela imagina. Ainda assim, vou esperar. Até porque pode ser que de dentro dela saia mais do que
aquilo que por dentro dela há.
P. S.: Depois de desperdiçar duas horas do meu precioso e mal remunerado tempo analisando os
impactos negativos que a cidade de Bologna, com e sem a ajuda da Curva de Lorenz (o que não
deixa de configurar trabalho adicional sem o meu batalhão de conselheiros), pode ter sobre mim
(e vice-versa), só posso dizer, mas assim olhando-me nos olhos: Giordano, aumenta o diâmetro e
o perfil longitudinal do teu bilau antes de te meteres numa canoa-furada destas.
Ao que tudo indica a partir de amanhã, e a título de indenização (não reparem), poderei tomar
algumas decisões por mim mesmo. Assim, sem a ajuda de frases-feitas ou de genitais hiperativas.
Uma saloiice cada vez menos comum na minha vida são os momentos de aperfeiçoamento
veterinário (mulheres). Não porque atravessar dois eclesiastes em noite de bar aberto e acabar
reconhecendo todos os motivos que dão forçosamente no que dão, não esteja entre as prioridades
daquilo que o mundo exige e merece de mim. Mas porque as "descobertas" - para que sejam completas,
tranqüilizantes e esquecíveis - devem estar encapsuladas em merdas que nos impeçam de prever que,
às tantas, vamos cair não apenas num buraco premonitório daquele outro que pode vir a acontecer
daqui a 10 minutos, mas que as coisas (entre elas o taxista que mascava chiclets, fazendo com ele
bolas grandes e azuis; e cuja retina, debaixo das bifocais, aparecia no retrovisor com um rápido
redemoinho), estão (e até onde sei, devem continuar) constrangidas ao aspecto de uma cômoda em
que sempre foi necessário fechar uma gaveta para que as outras se abrissem. Ou isso, ou portanto
não é preciso que me obriguem a observar o detalhe do que me acontece, como se em cada uma
destas merdas me despachasse já para o ano todo.
P. S.: Amanhã, se tiver tempo, venho refazer a toilette a este post.
Pode ser que a influência do mau futebol italiano na liga portuguesa não seja suficiente para
exprimir a contrariedade que o cochilo do meu avô na frente da televisão já teve o condão de evidenciar.
Visto a jaqueta (com fortes aromas a ranço na gola alta) e o par de galochas laranja. A chuva é fina,
com um sabor dominante que nos faz salivar e cuspir a qualquer hora. Ainda assim estamos prontos - eu,
o meu avô, e o Chico (um cachorro malhado que vive na estalagem e que nos servirá de guia) - para
botanizar a prainha e os dois matos agrupados em saiotes à frente dela. O meu avô faz boa figura na sua
capa de chuva. Vejo nisto o reverso da prova de que se trata de um homem que não se intimida com as
exigências da proporcionalidade. Mas isto de ser avô e de ser contra o desperdício de se dar ao mundo
todas as voltas possíveis em 3 meses é como ser o baterista dos Beatles sem ser o Ringo Starr: pega mal.
Já em mim, de tanto me assoar, nariz e beiços trazem à tona aquela que, dentre as poucas alucinações
gustativas que perduram da minha infância, mais parecido me deixa com o Incrível Hulk, mas
pequeno e sem os músculos.
Fui guardar a gabardine no armário. Foram cerca de dois mil quilômetros de carro. Para dissipar a
sonolência pós-almoçarada, íamos (eu e o meu avô) maldizendo às boas condições da estrada. Nem a
tênue e ainda distante vista do casario de Angra nem a presença de mulheres nas lavouras conseguia
ser entusiasmante. E, além do mais, dirigir era parte da vontade que eu não tinha de meter "as mãos na
massa".
Cruzamos a cachoeirinha (e toda essa merda que bem menciono) para, duas matas de loureiros adiante,
estacionarmos no gramado ao lado da estalagem. A hospedagem era boa, e como estava quente calhou
de nos trazerem uma bola de sorvete com um molho de figos delicadamente macerados. Sentamos numas
cadeiras de armar postas na varanda. Depois nos desenjoamos com uns cigarrinhos que ele trouxe da
Guatemala. O arrivismo do meu avô não renuncia felizmente à sutileza. À noite, a pouca densidade do
caldo que preparamos para o jantar foi compensada pela cerveja artesanal que compramos no vizinho.
O meu avô duvidava, mas passamos um final de semana arriscadamente próximos como os jogadores
nas equipes do Mourinho.
Depois de ler 4 caixas de Lucky Luke um homem compreende muito melhor que não deve se dirigir
à humanidade sem antes dizer quem é. No caso do vencedor do Goncourt 2010, não é preciso. E talvez
seja mesmo apenas um preconceito o fato de Michel Houellebecq estar vivo. Basta escutar qualquer
uma das suas merdas para ficar convencido de que ele não vive. Cá entre nós, com todo este circo
montado, há uma obrigação contra a qual os meus hábitos, e ainda mais o superavit das minhas leituras
em 2010, não se acomoda: a obrigação de pentear macacos quando o assunto é Michel Houellebecq. O
único mérito de Houellebecq (concedendo que haja um) foi que ele não procurou dizer o que os outros
ainda não haviam dito. Acho até que ele é uma pessoa que, do ponto de vista daquilo que pensa, se
parece muito com o monstro de Lochness: é apenas folclórico. Digo isto por intuição, porque (para lá
de toda a lógica possível) não o li.
Dentre as minhas poucas atribuições constava (aos 9 anos) a leitura diária para a distração
do meu avô. Este homem, que não conheceu nenhuma das objeções contemporâneas à criação de
boas circunstâncias e que, ainda hoje, só conhece a internet e a minissaia por ouvir dizer, teve na
sua biografia vastas e prolongadas estadas no continente africano. Viveu sete anos na periferia do
Cairo. O Reagan, a Thatcher e o Tintin eram a sua referência política para todos os males vividos
naqueles lugares onde o catolicismo o educou para ser culpado. Porque é isso, justamente, que faz
de nós os filhos da puta que, com grande felicidade, realmente somos.
Eu, de escritores não falo. Mas, caso falasse, diria que o Boris Vian é um bom escritor e que,
apesar disso, escreve bem, diria mesmo imaculadamente bem. Afinal pode-se chutar uma bola sem
ser de trivela, e decidir partidas a caneladas.
O autor deste blogue - e uso o termo "autor" com a latitude menos cartesiana que o termo comporta -
esteve em Tarragona trocando os vês pelos bês durante os dois últimos meses, e o que mais lhe inquieta
agora é a possibilidade de sobreviver aos próximos dois sem uma intersecção segura com esta cidadezinha
e algumas de suas habitantes em noite de bar aberto.
Pode-se dizer, fukuyamamente, que é o fim (não o único; especialmente não agora) das minhas
necessidades não especiais. Também pensei em abandonar definitivamente este URL (até porque eu tenho
muitos telhados de vidro) e ir para Las Vegas me despedir de mim mesmo. Mas não. Não tenho uma
vontade diferente da que tinha. É a mesma. Mas menor (e continuamente diminuindo por um número de
razões que só podem ser completamente percebidas em 3D). É que nem de pernas e braços cruzados
consigo perceber as mirabolantes doses de colaboração passiva necessárias para reverter um festivo
rendez-vous de superstições com apenas 35 anos de atraso.